#11: sobre ser fã
você é o tipo de fã crítico ou é aquele ferrenho que defende com unhas e dentes?
Eu diria que a minha relação com a música começou comigo sendo fã ainda na infância. Aquela sensação de obsessão com alguns artistas me fez ir atrás de aprender outras línguas, pesquisar sobre gravadoras e contextos mundiais, compreender gêneros musicais, instrumentos e produção, setlists, shows, bastidores, e por aí vai. Basicamente, toda essa experiência moldou boa parte da minha identidade.
E essa é justamente uma das grandes maravilhas de ser fã. Esse processo te oferece identificação e, melhor, o pertencimento a uma comunidade, uma das maiores necessidades do ser humano.
Uma pesquisa recente da Netflix, chamada #StillWatching, analisou a audiência e a relação dos Millennials e da Geração Z com o streaming e com o entretenimento. Um dos insights mostrou que 78% da GenZ brasileira diz que ser fã é parte fundamental de quem eles são.
Como afirma o jornalista Luis Mauro Sá Martino, em matéria da Faculdade Cásper Líbero, “ser fã, de maneira bem resumida, pode envolver um processo de identificação (‘nossa, essa pessoa tem muita coisa em comum comigo’) e de projeção (‘gostaria de ser assim como ela em alguns aspectos’). E participar de um fandom pode significar também se sentir parte de uma comunidade, ponto importante na criação de nossa identidade”.
Essa sensação, por um lado, é bela, positiva, inspira, aproxima da arte e traz até mais sentido pra vida. Por outro, pode levar a uma obsessão – até doentia – pelos artistas. As comunidades que giram em torno deles costumam ser extremamente organizadas, característica bastante ampliada por meio das redes sociais, e impulsionam vendas, charts e o engajamento, seja numa bolha específica ou com altos números no mundo todo. Para interagir e se conectar com seus ídolos, os fãs se adaptam, buscam conhecimento e se organizam em torno de novas tecnologias à medida que elas surgem, não tem tempo ruim, nem dificuldade o suficiente que os impeça de alcançar seus objetivos, é algo que o próprio pesquisador norte-americano Henry Jenkins já abordou em seus trabalhos. Os fãs ainda são craques na criação de conteúdo orgânico, capaz de conquistar ainda mais pessoas para aquela comunidade, a matéria da Tag Revista evidencia bem isso.
Quem entendeu isso, se destaca, principalmente quando olhamos para o fato de que por trás de cada músico existe o ponto de vista de marketing e de vendas. Tanto que já existem estratégias e ações específicas para esse público. As próprias marcas querem ter seus próprios “brand lovers”, ancoradas nessa ideia de fã. São bons cases.
Cultura de fãs
Olhando de fora, até parece que as equipes dos músicos fazem tudo meio que “despretensiosamente”, mas essa não é a realidade, existe muita profissionalização, estratégia e oportunidade na relação fã-ídolo. Para provar isso, conversei com o Lucas Muller, ele é relações-públicas e founder do Come to Brazil, e contou como usa a cultura de fãs nas estratégias.
“Na Come to Brasil acreditamos que o fã é o elo mais direto entre o artista e o sucesso. As interações que propomos vão muito além de redes sociais: criamos centrais de fãs, organizamos calls no Zoom, enviamos materiais exclusivos como cartões postais e até experiências presenciais. A ideia é sempre dar voz a quem acompanha de perto e transformar o fã em parte ativa da jornada. Essa aproximação é muito bem recebida pela comunidade artística porque os artistas percebem que não se trata apenas de ‘números’, mas de pessoas reais que impulsionam engajamento, bilheteria e relevância cultural”.
A agência de relações públicas tem como objetivo ajudar artistas, marcas e empresas de entretenimento se conectar com o público brasileiro, transformando fãs em comunidades. Isso inclui de lançamentos musicais a ativações com fãs, estratégia com influenciadores, shows e imprensa.
Quando falamos do universo do entretenimento, é impossível não considerar esse público e pensar em formas criativas de engajar e encantar, isso pode ser fácil, ao mesmo tempo em que pode ser um desafio de não cair no “tedio de possuir” ou mesmo se tornar o “destruidor de sonhos”. Afinal, os fãs podem ser as pessoas que vão defender o ídolo, mas eles também podem se decepcionar e se tornarem os causadores da crise. Como qualquer relação, é complexa. – E, pessoalmente, eu já vi fãs se virarem contra ídolos e seus times depois de eventos mal-organizados e com expectativas mal-alinhadas.
Como complementa Lucas, “o fã é a base de tudo. São eles que compram ingressos, divulgam, viralizam músicas, defendem artistas em momentos de crise e sustentam carreiras ao longo do tempo. Quando existe uma relação verdadeira, o fã se torna um multiplicador — e isso tem um valor incalculável. Muitos fenômenos globais só alcançaram esse status porque cultivaram uma comunidade forte, e no Brasil esse poder é ainda mais intenso, já que os fãs são extremamente engajados”.
Como bem sabemos, os brasileiros são bastante conhecidos mundialmente como entusiasmados e apaixonados por seus ídolos e podem gerar movimentos mundiais com seu humor e determinação, até uma matéria d’O Globo destacou como conquistar os fãs brasileiros é garantia de like e engajamento.
E, mais do que nunca, esses fãs querem viver experiências ligadas aos seus ídolos, seja de perto ou de longe. Uma pesquisa da consultoria Monks, com o instituto Floatvibes, revelou que os brasileiros gastam cerca de R$200,00 mensais em produtos ou ingressos ligados aos artistas que gosta e acompanha, valor que é cinco vezes maior do que o gasto médio mensal com cultura no país.
Fãs e o jornalismo musical
Se é burburinho que você quer, com os fãs é isso que você vai ter. Ao mesmo tempo em que eles têm todo esse poder positivo e grandioso, às vezes eles também pesam a mão em momentos como seu artista está recebendo uma crítica.
O jornalismo musical passa por um momento delicado. Alguns profissionais sofrem retaliação após publicarem críticas jornalísticas das obras de artistas populares. Um bom exemplo é a cantora Taylor Swift e seu fandom apaixonado, que se envolvem em algumas polêmicas quando o assunto é discordar de jornalistas. Duas matérias explicitam bem isso: Repórter da BBC e Repórter do G1, já virou um clássico acompanhar os reviews da Carol Prado em dia de lançamento da artista e os comentários raivosos dos swifties no Twitter/X.
Não aceitar críticas jornalísticas, não aceitar comentários dos outros, xingar profissionais e especialistas são cenas bastantes comuns no mundo online em geral. E alguém que pode comentar mais sobre isso é a jornalista e produtora de conteúdo Sofia Rollo Duarte, repórter de moda e beleza da Capricho. Ao publicar um vídeo no TikTok comentando sobre o show da Lagum da nova turnê “As Cores, as Curvas e as Dores do Mundo”, Sofia recebeu alguns comentários negativos de fãs da banda.
Conforme ela comenta, “existem fandoms e fandoms, uns mais fervorosos que outros, mas tem muita gente que não aceita ouvir críticas negativas (o que é diferente de ódio gratuito) a respeito do ídolo, o que, na minha opinião, pode ser perigoso. Quando os comentários construtivos vêm de críticos especializados ou de outros fãs, é normal que alguns concordem e, outros, discordem - e tudo bem, afinal, são opiniões passíveis de discussão. Porém, o que me assusta são comentários que dizem “guarda pra você” ou “ele [o artista] vai ver e ficar chateado” e até “você está fazendo um desserviço”. Isso aconteceu comigo quando publiquei um vídeo no TikTok levantando algumas críticas a aspectos técnicos de um show da banda Lagum - que é minha banda favorita. Me assusta perceber que tanta gente acredita piamente que uma visão crítica, mesmo que respeitosa, é desnecessária. Todo artista que trabalha profissionalmente com música está acostumado a receber críticas e a lidar com isso, afinal, esse é um trabalho como tantos outros, em que recebemos críticas e podemos melhorar. Por outro lado, vale ressaltar que a maioria das pessoas concordou e teve sensações parecias às minhas, o que mostra que a minha visão tem fundamento, sim”.
À vista disso, ela reconhece que essa relação online é crucial. “Na minha opinião é algo positivo, especificamente para a conexão fã-ídolo. Da perspectiva dos fãs, a gente se sente mais próximo dos artistas, até porque conseguimos interagir com as publicações deles e ter uma relação mais direta, sem tantos intermediários. Da perspectiva do ídolo, fica mais fácil de ver o que a galera está pensando, pedindo e falando, o que pode, inclusive, contribuir para que surjam novas ideias do que fazer em shows e até de estratégias de marketing, além de, claro, facilitar a divulgação de novos trabalhos”, explica a jornalista.
Se estamos passando por isso, será que o medo da retaliação, não pode impactar diretamente no teor das avaliações e até excluir o rigor jornalístico, tornando os reviews mais rasos e menos críticos na tentativa de agradar os fandoms? Ou será que isso gera um engajamento e grandes cliques? Falem bem ou falem mal, mas falem de mim. É aquele Bad PR e a tentativa de gerar visibilidade a qualquer custo.
Para Sofia, esse cenário pode impactar a criação de conteúdo sim, “porque, querendo ou não, um ou dois comentários absurdos, mesmo em meio a tantos outros que concordam com você, se destacam. As pessoas podem acabar se podando ou evitando comentar sobre esse assunto de novo, por exemplo. Mas, como eu tenho uma visão jornalística muito clara, não é o meu caso. Meu trabalho exige que eu tenha visão crítica e que eu seja questionadora em primeiro lugar. Embora o meu TikTok seja pessoal, eu acabo levando esse olhar para todas as áreas da minha vida, inclusive nos vídeos que publico nas redes sociais”.
É fundamental que o rigor jornalístico, com muito pesquisa, conhecimento e credibilidade, permaneça mais forte que qualquer opinião, gosto pessoal ou busca por cliques. Dá pra ser fã sem perder o senso crítico e reconhecendo quando o ídolo erra ou acerta, afinal ele também é ser humano.
O tema “fãs” não se esgota por aqui, há ainda outras direções para lançar o olhar e explorar essa relação que tem levado novos caminhos e sentidos na atualidade.
Até a próxima!!







Num mundo perfeito qualquer fan base faria críticas construtivas, mas como você pontuou, a crítica ao ídolo também pode ser destrutiva! Mais um belo texto 💌